O campeonato municipal de futebol era a diversão de toda a Cidade nas quentes tardes de domingo. Para não dizer a única, pois a cidade era visitada uma vez por ano por um Circo decadente, e nada mais, a não ser a Quermesse do Padroeiro da cidade que acontecia em Junho.
Havia uma época em que os “atletas” eram disputados entre as equipes do certame. Preenchia-se uma ficha de inscrição que conferia uma idéia de compromisso formal com o time. Mudar de equipe no meio da competição, nem pensar.
Domingo à tarde, após o almoço, era o momento de seguir para o campo de futebol que ficava às margens do Rio Juquiá, e um pouquinho antes do matadouro de bois oficial da cidade.
Debaixo de 40 graus juquiaenses, o público esparramava-se ao redor do campo de jogo, e do alto da ponte que cruzava os dois lados do rio. Interessados em uma briga generalizada, um boi que escapasse de seus algozes, ou uma catástrofe inesperada. Futebol mesmo, não merecia a atenção.
Caminhões que traziam as equipes e os torcedores funcionavam como vestiários improvisados. Para aumentar a concentração antes do jogo, alguns atletas arriscavam uma garrafa de cachaça que passava de mão em mão, ou, os mais afoitos, um mergulho no rio.
Equipes em campo, ele chegava. A estrela maior de uma constelação de craques. A única pessoa capaz de desviar a atenção das jogadas mais disputadas e colocar os jogadores indisciplinados para fora do campo com gestos teatrais que impunham um respeito danado.
Chegava à beira do campo como quem não queria nada. Radinho de pilhas no ouvido (que se tornou sua marca registrada), parava sua bicicleta onde dependurava seus chinelos e borracha, e atendia prontamente ao convite dos jogadores para que fosse o árbitro da peleja.
Quando não acontecia briga entre as equipes, o jogo poderia ser interrompido por alguns fatos inusitados para uma grande cidade, mas não para Juquiá. Poderia ser uma vaca que escapando do matadouro invadisse o campo, ou a bola caindo no Rio Juquiá, à espera de alguém mais empolgado para mergulhar em suas águas barrentas para recuperar a “gorduchinha”.
Apito na boca, Bibica assistia impassível às interrupções. Afinal, a estrela maior era ele.